Colunas

Será que Deus se arrepende?

A Bíblia afirma: "Deus não é homem para mentir, nem filho de homem para se arrepender"

Será que Deus se arrepende?

A Bíblia afirma: “Deus não é homem para mentir, nem filho de homem para se arrepender”

Quem já leu os textos bíblicos que falam sobre o arrependimento de Deus certamente irá ficar um pouco confuso: “O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal. Então o Senhor arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra; e isso lhe cortou o coração” (Gênesis 6:5,6).

Além do texto expressivo de Gênesis 6, outros textos da Bíblia também afirmam que existe um “arrependimento de Deus”. Em Êxodo 32:12-14, por exemplo, vemos como o Senhor se arrepende do mal (castigo) que haveria de trazer sobre o povo de Israel. Deus também se arrepende de ter constituído Saul como rei de Israel (1 Samuel 15:10,11). Finalmente, vale destacar o arrependimento divino diante da destruição divina, tão desejada pelo profeta Jonas (Jonas 3:10).

De fato, o assunto tem causado controvérsia e confusão, pois, historicamente a Teologia cristã tem afirmado que Deus não se arrepende. Como entender a questão?

Nos anos em que fazia pós-graduação na área de hebraico da Universidade de São Paulo, tive de estudar um pouco do pensamento judaico contemporâneo. Entre os diversos movimentos do judaísmo, chamou-me a atenção a proposta de aproximação entre o pensamento teísta e panteísta. Esta tendência filosófico-teológica é conhecida como panenteísmo. O panenteísmo afirma que o universo é Deus, mas que Deus é mais do que o universo. Além disso, ressalta a importância do fluxo do tempo como fator preponderante na realidade em que vivemos.

Entre os defensores dessa sugestão estão o famoso rabino Harold Kushner (autor de Por que Coisas Más Acontecem a Pessoas Boas) e o pensador Abraham Heschel. Na ocasião, fiquei surpreso, pois até então desconhecia a influência do panteísmo na história do pensamento judaico. Eu imaginava que o legado panteísta de Baruch Spinoza influenciava os judeus secularizados, mas para a minha surpresa, isso não se confirmou. Minha descoberta levou-me a pesquisar e a perceber que existe uma tendência teológica preocupante que tem influenciado diversos meios teológicos judeus e cristãos. Esse novo enfoque, de cunho panenteísta na base, surgiu nos Estados Unidos e já influencia outros países. A raiz da nova tendência está no que é chamado de Teologia do Processo.

O movimento começou a ter força nos EUA nos anos 30. Seus principais representantes são Charles Hartshorne, Alfred Whitehead e John Cobb. Em resumo podemos dizer que é “o elogio do movimento”. Os teólogos da Teologia do Processo enfatizaram que a realidade é um fluxo permanente, e que o próprio Deus está inserido nesse fluxo. Deus está dentro da história e do tempo e não acima dele.

Como se vê, acabaram adotando a perspectiva panenteísta (Deus se confunde com a natureza, ainda que seja maior do que ela), afastando-se da Teologia Cristã Histórica. Portanto, a ideia sugerida é que Deus é na verdade um ser mutável, que está numa espécie de processo evolutivo. Na busca de uma refutação de uma metafísica estática, a Teologia do Processo define como categoria absoluta o fluxo do tempo. Deus está subordinado a ele, e deixa de ser o Deus, no sentido bíblico do termo, onisciente e onipotente.

Mais tarde, filho da Teologia do Processo, surge depois o conhecido movimento norte-americano do teísmo aberto. Foi um reflexo da Teologia do Processo no meio protestante americano. Começou no meio Adventista com Richard Rice, e tem como principais defensores teólogos estadunidenses como John Sanders e Clark Pinnock.

Do ponto de vista da história da Teologia, o teísmo aberto representa uma reação exagerada contra o calvinismo. A ideia básica dos novos teólogos americanos é que Deus decidiu abrir mão de sua soberania e da sua onisciência e resolveu não saber e controlar o futuro. Num processo de autolimitação, Deus passa a não ter em ação seus atributos. Em resumo, Deus “abre mão de ser Deus”. Na verdade, eles rejeitam a teologia histórica evangélica e ignoram centenas de textos bíblicos que afirmam atributos essenciais de Deus.

Basta citar alguns poucos textos da literatura poética bíblica:

  • “Conheces as nossas iniquidades; não escapam os nossos pecados secretos à luz da tua presença” (Salmo 92:8).
  • “Antes mesmo que a palavra me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente, Senhor” (Salmo 139:4).
    “Para onde poderia eu escapar do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? (Salmo 139:7).
  • “Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42:2).
    Por incrível que pareça, o intuito original da Teologia do Processo e do teísmo aberto era positivo. A ideia inicial era apologética! O intuito era resolver o problema do mal. Como Deus pode ser considerado bom diante de tanta maldade do mundo? O interesse desses teólogos era “livrar” Deus de ser responsabilizado pelo sofrimento que há no mundo. No entanto, o resultado foi catastrófico e trouxe mais problemas do que soluções. A solução simples foi: “Deus precisa deixar de ser Deus, tornando-se menos onipotente e onisciente para que não seja responsabilizado pelo sofrimento do mundo”.

Essa teologia “prática” e “simples”, e superficial, é na verdade uma teologia radical, polarizada, que ignora a dialética hebraica bíblica e que desconhece a realidade do mistério. Como gosto de dizer: precisamos evitar “a teologia do saci-pererê” (a teologia de uma “perna só”, de uma tendência só, radical). É preciso fugir dos radicalismos: Alguns cristãos dizem que Deus é só razão, outros afirmam que Ele é só emoção. Algumas linhas teológicas insistem que Deus faz tudo, anulando a ação do ser humano, outras afirmam que Deus não pode fazer nada sem nossa autorização (e ainda chamam Deus de Senhor!!!). Alguns teólogos preferem um Deus mais coletivo, sociológico; outros afirmam que ele é o Deus essencialmente individual. Há quem veja Deus como inserido na realidade concreta do mundo; outros o colocam no “milésimo céu”, em sua espiritualidade e distância absolutas.

A verdade é que toda teologia radical terá sérios problemas e graves consequências. Devemos entender que “duas paralelas só se encontram no infinito”, que toda moeda “tem duas faces” e que a realidade é mais dialética. Na Bíblia, há tensões com as quais precisamos conviver. Se cairmos para um extremo, logo adotaremos uma heresia. Uma teologia equilibrada trará muitos benefícios para todos. Além disso, é preciso ressaltar que o teísmo aberto parece estar procurando “aposentar a Deus”. Além de isso ser impossível, pois Deus não deixará de ser o Deus onisciente e onipotente, é preciso dizer que em pouco tempo o teísmo aberto é que estará “aposentado”.

Portanto, devemos concluir afirmando que quando o texto bíblico afirma que Deus se arrepende, está usando uma linguagem antropomórfica ou o que chamamos de antropopatia. Deus não se arrependeu de modo absoluto. A linguagem é figurada, expressa em termos humanos. Pois, o Deus da Bíblia, é o Senhor do universo, onipotente, onipresente e onisciente. Afinal, como sabemos
muito bem: “Deus não é homem para mentir, nem filho de homem para se arrepender” (Números 23:19a).

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).
Tags

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja Também

Fechar
Fechar

Adblock Detectado

Considere nos apoiar desabilitando o bloqueador de anúncios