Relatos de estupros, sequestros, conversões forçadas e casamentos impostos atingem mulheres e meninas em áreas afetadas pela violência no norte e no centro do país
A situação de mulheres e meninas cristãs em algumas regiões da Nigéria voltou a chamar atenção internacional diante de relatos de sequestros, violência sexual, conversões religiosas forçadas e casamentos forçados. Em junho de 2026, especialistas das Nações Unidas manifestaram preocupação formal com casos envolvendo mulheres e meninas cristãs, especialmente nos estados de Borno, Bauchi e Kaduna.
Segundo a comunicação registrada pelo sistema de especialistas da ONU, foram recebidas informações sobre ataques contra mulheres e meninas cristãs em comunidades de Borno, além de casos envolvendo uma adolescente submetida a conversão forçada e casamento infantil e meninas de Kaduna que teriam sido ameaçadas após recusarem casamentos impostos. Os especialistas relacionaram os episódios à deterioração da segurança no norte da Nigéria e no Middle Belt.
Estupro usado durante o cativeiro
Organizações que acompanham a perseguição religiosa afirmam que mulheres sequestradas por grupos armados podem permanecer durante semanas ou meses em áreas de difícil acesso. Nesses locais, sobreviventes relatam violência física, estupros, trabalho forçado, gravidez forçada e pressão para abandonar a fé cristã.
Um relatório publicado em junho pela Christian Solidarity Worldwide (CSW) afirma que mulheres e meninas sequestradas durante ataques a vilarejos, escolas, locais de culto e comunidades rurais estão particularmente vulneráveis à violência sexual e a outras formas de abuso. A organização ressalta, porém, que muitos casos permanecem subnotificados devido ao medo, ao estigma e à dificuldade de acesso das vítimas à Justiça.
Em setembro, o veículo TruthNigeria publicou relatos de mulheres que afirmam ter sido sequestradas em áreas rurais do estado de Kaduna e violentadas durante o período de cativeiro. As denúncias foram atribuídas às próprias sobreviventes e a lideranças comunitárias, e o veículo informou que procurou autoridades policiais para obter posicionamento.
Casos também envolvem Boko Haram e ISWAP
No nordeste da Nigéria, grupos jihadistas como Boko Haram e ISWAP também são apontados em relatos de sequestros e abusos contra mulheres cristãs.
Em maio, o TruthNigeria entrevistou duas mulheres cristãs que disseram ter permanecido meses em cativeiro do ISWAP em Borno. Uma delas afirmou ter dado à luz durante o período de captura. Segundo o relato, as mulheres foram sequestradas enquanto trabalhavam em suas propriedades rurais e sofreram pressão para se converter ao islamismo.
A história de Leah Sharibu, sequestrada em 2018 quando tinha 14 anos, tornou-se um dos casos mais conhecidos internacionalmente. Segundo a organização Open Doors, ela permaneceu em poder do ISWAP depois de se recusar a renunciar à fé cristã.
Números exatos são difíceis de estabelecer
Apesar da existência de diversos relatos, não há atualmente uma estatística confiável que permita afirmar quantas mulheres cristãs foram estupradas em toda a Nigéria. A violência ocorre em regiões onde comunidades inteiras enfrentam ataques, sequestros e deslocamentos, enquanto muitos crimes não são denunciados.
Por isso, especialistas e organizações que acompanham a situação destacam a necessidade de proteger as vítimas, investigar as denúncias e responsabilizar os autores.
A preocupação também ocorre em um contexto mais amplo de sequestros em massa no país. Em agosto, centenas de pessoas foram sequestradas em ataques no estado de Níger, entre elas mulheres, crianças e idosos. A Reuters informou posteriormente que moradores estimavam cerca de 700 pessoas ainda em cativeiro.
A violência contra mulheres cristãs na Nigéria, portanto, envolve diferentes grupos armados e diferentes formas de abuso. Os relatos documentados apontam para estupros e outras formas de violência sexual em situações de cativeiro, mas a dimensão total do problema permanece difícil de medir.

